Sete dias depois de o Titanic afundar no Atlântico Norte, o corpo do homem mais rico a bordo foi encontrado boiando entre os destroços. No bolso, ainda preso à corrente, estava um relógio de ouro. Mais de um século depois, aquele mesmo relógio foi vendido em leilão por quase R$ 7,5 milhões, um lembrete e tanto de que o ouro sobrevive a praticamente tudo, inclusive a um dos maiores naufrágios da história.
O homem mais rico do Titanic
John Jacob Astor IV tinha 47 anos e era, disparado, o passageiro mais rico a bordo do RMS Titanic. Herdeiro de uma das maiores fortunas dos Estados Unidos, seu patrimônio pessoal chegava a US$ 87 milhões, o equivalente a quase US$ 3 bilhões em valores atuais. Empresário, investidor e incorporador imobiliário, Astor viajava de volta para Nova York ao lado da segunda esposa, Madeleine, grávida, depois de uma longa lua de mel pela Europa e pelo Egito.
Na madrugada de 15 de abril de 1912, quando o Titanic colidiu com o iceberg, Astor a princípio não acreditou que o navio estivesse em risco real. Só quando ficou claro que a embarcação afundaria, ele ajudou a esposa a embarcar no bote salva-vidas número 4. Foi visto pela última vez fumando um cigarro e conversando com outro passageiro, no convés do navio que naufragava.

John Jacob Astor IV, o passageiro mais rico a bordo do RMS Titanic (Foto: domínio público)
Um relógio recuperado do corpo, sete dias depois
O corpo de Astor foi encontrado no Atlântico sete dias após o naufrágio. Junto com ele, os resgatistas recolheram seus pertences pessoais: entre eles, um relógio de bolso de ouro 14 quilates, da marca Waltham, gravado com as iniciais "JJA". A peça havia acompanhado Astor até o fim, submersa em água gelada por mais de uma semana, e ainda assim chegou intacta às mãos de quem a recuperou.
O relógio foi devolvido ao filho de Astor, Vincent, então com 20 anos, que restaurou cuidadosamente a peça. Anos depois, Vincent presenteou o relógio a William Dobbyn, secretário de longa data de seu pai. A família Dobbyn manteve a peça por décadas, até vendê-la a um colecionador anônimo nos anos 1990.
A peça
- Relógio de bolso Waltham
- Ouro 14 quilates
- Gravado com as iniciais "JJA"
A jornada
- Recuperado do corpo de Astor em 1912
- Restaurado pelo filho, Vincent Astor
- Presenteado a William Dobbyn, depois mantido por décadas pela família dele
O leilão
- 27 de abril de 2024
- Henry Aldridge & Son (Reino Unido)
- Vendido por £1,175 milhão (~R$ 7,47 milhões)
Um recorde que superou em muito a estimativa
O leilão aconteceu em 27 de abril de 2024, conduzido pela Henry Aldridge & Son, casa leiloeira britânica especializada em itens relacionados ao Titanic. A estimativa inicial para o relógio era de £100 mil a £150 mil. O lance final, com taxas incluídas, chegou a £1,175 milhão, cerca de R$ 7,47 milhões, mais de sete vezes acima do topo da estimativa.
O comprador foi um colecionador particular americano. Com esse resultado, o relógio se tornou o item de memorabilia do Titanic mais valioso já vendido em leilão, superando o recorde anterior, de £1,1 milhão, pago em 2013 por um violino que teria sido tocado pela banda do navio enquanto ele afundava.

O relógio de bolso de ouro gravado com as iniciais "JJA", vendido por £1,175 milhão em leilão (Foto: Henry Aldridge & Son)
"Não é surpreendente, considerando o material"
O leiloeiro Andrew Aldridge, à frente da venda, comentou o estado de conservação da peça mais de um século depois do naufrágio: segundo ele, o fato de o relógio ter sobrevivido tão bem "não é surpreendente", justamente pelo material do qual é feito. É uma frase simples, mas que resume exatamente o motivo pelo qual o ouro segue sendo, até hoje, sinônimo de valor duradouro.
Enquanto o Titanic afundava a mais de 3.800 metros de profundidade, onde permanece até hoje, e enquanto o corpo de Astor ficou submerso em água gelada do Atlântico por sete dias, o relógio de ouro no bolso de seu casaco não enferrujou, não corroeu e não perdeu a gravação das iniciais. O ouro, diferente de quase qualquer outro metal usado em joalheria e relojoaria da época, simplesmente não reage com a água do mar da mesma forma destrutiva.

Detalhe do mecanismo interno do relógio, preservado mesmo após a submersão no Atlântico (Foto: Henry Aldridge & Son)
O que fica dessa história
A história do relógio de Astor é um lembrete e tanto de duas coisas ao mesmo tempo: o valor histórico que um objeto pode carregar, e o valor físico do próprio material que o compõe. Sem o ouro, sem a resistência do metal à água, ao tempo e à corrosão, esse relógio simplesmente não teria sobrevivido de forma reconhecível para contar essa história mais de cem anos depois.
É o mesmo princípio que vale para qualquer peça de ouro guardada em casa hoje, ainda que numa escala bem menor. O ouro não se degrada com o tempo, não importa por quanto tempo fica parado numa gaveta ou por quantas décadas passa despercebido. O peso e a pureza do metal continuam ali, prontos para serem avaliados a qualquer momento.
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