Em 1885, um czar russo encomendou um presente de Páscoa que parecia simples: um ovo de esmalte branco. Dentro dele havia outro ovo, e dentro desse, uma galinha, e dentro da galinha, uma coroa. O que começou como um mimo entre marido e mulher virou uma tradição de 32 anos, sobreviveu à queda de um império e, mais de um século depois, ainda bate recordes em leilão.
Um presente que virou tradição
Em 1885, o czar Alexandre III encomendou ao joalheiro Peter Carl Fabergé um presente de Páscoa para a esposa, a czarina Maria Feodorovna. Por fora, o objeto era discreto: um ovo revestido de esmalte branco opaco. Mas ao abri-lo, a czarina encontrou uma sequência de surpresas encaixadas uma dentro da outra.
Surpresa 1
- Casca de esmalte branco
- Abre e revela uma gema dourada
Surpresa 2
- Dentro da gema, uma galinha de ouro
- A galinha também se abre
Surpresa 3
- Uma coroa imperial em miniatura
- E um pingente de rubi (hoje perdido)
A czarina ficou tão encantada que o czar nomeou Fabergé joalheiro oficial da coroa e fez uma encomenda permanente: a partir daquele ano, um novo ovo seria entregue todo mês de abril, sempre único, sempre guardando alguma surpresa em seu interior. Depois da morte de Alexandre III, seu filho Nicolau II manteve a tradição e passou a encomendar dois ovos por Páscoa, um para a mãe, outro para a própria esposa.
Décadas de trabalho artesanal em segredo
Entre 1885 e 1916, cerca de 50 ovos imperiais foram entregues à família real russa (mais dois estavam em produção para 1917, mas nunca chegaram a ser concluídos). Cada peça podia levar quase um ano inteiro para ficar pronta, produzida nas oficinas da Casa Fabergé em São Petersburgo, que reuniam centenas de artesãos especializados em ourivesaria, esmaltação e lapidação.
Peter Carl Fabergé raramente colocava a mão na massa. Seu papel era supervisionar e dar liberdade criativa a mestres-ourives como Michael Perkhin e Henrik Wigström, responsáveis por boa parte dos ovos imperiais mais conhecidos. A técnica de assinatura da casa era o esmalte guilloché: um metal gravado com padrões geométricos finíssimos e depois recoberto por camadas de esmalte translúcido, criando um efeito de profundidade e brilho único.
Algumas peças escondiam verdadeiras proezas de engenharia em miniatura. O Ovo da Ferrovia Transiberiana, de 1900, contém a réplica de um trem em ouro e platina que realmente funciona: dá corda com uma pequena chave também de ouro e a locomotiva chega a se mover, com um rubi no lugar do farol.
A queda de um império, o desaparecimento de um tesouro
A Revolução Russa de 1917 interrompeu a tradição de uma vez. A Casa Fabergé foi nacionalizada, a família deixou o país e boa parte da coleção imperial foi confiscada e levada ao Kremlin. Anos depois, já sob o governo soviético, várias peças foram vendidas no exterior para levantar moeda estrangeira. Nas décadas seguintes, os ovos se espalharam por coleções privadas e museus ao redor do mundo, e alguns simplesmente desapareceram dos registros.
O ovo que quase foi derretido
Uma das histórias mais surpreendentes é a do Terceiro Ovo Imperial, feito em 1887. Por décadas, ninguém sabia seu paradeiro. Anos atrás, um comerciante de metal nos Estados Unidos comprou o objeto num mercado de antiguidades, pagando um valor calculado apenas pelo peso do ouro e das pedras que via, sem imaginar sua origem. Endividado e cogitando derreter a peça, ele fez uma busca on-line pelo nome de uma marca de relógio gravada no interior do ovo e caiu num artigo de jornal que descrevia exatamente aquele objeto como um dos ovos imperiais desaparecidos.
Especialistas da galeria londrina Wartski confirmaram a autenticidade da peça. Um deles descreveu o momento em que viu as fotos pela primeira vez como algo raro de acontecer numa carreira inteira: como se um tesouro lendário tivesse simplesmente entrado pela porta. O ovo foi vendido a um colecionador privado, cuja identidade nunca foi revelada.
Um novo recorde, mais de um século depois
A força desses objetos no mercado segue firme até hoje. Em dezembro de 2025, o Ovo de Inverno, esculpido em cristal de rocha e coberto por um desenho de flocos de neve com mais de 4 mil diamantes, foi arrematado num leilão da Christie's, em Londres, por cerca de US$ 30,2 milhões. Foi a terceira vez que a própria peça bateu recorde de leilão: já havia sido vendida por valores expressivos em 2002 e voltou a superar sua própria marca em 2025, desta vez estabelecendo um novo recorde mundial para uma obra de Fabergé.
O Ovo de Inverno, de 1913, arrematado por cerca de US$ 30,2 milhões (Foto: Christie's)
Flocos de neve gravados em cristal de rocha e cravejados de diamantes (Foto: Christie's)
Antes do leilão, a estimativa da Christie's já ultrapassava £20 milhões (Foto: Christie's)
Ao lado do Ovo do Tricentenário Romanov, em exposição de 2021 no Victoria and Albert Museum (Foto: Jonathan Brady/PA Images/Getty Images)
O que fica dessa história
O que sustentou o valor dos ovos Fabergé ao longo de mais de um século não foi apenas o ouro ou as pedras usadas na fabricação. Foi a combinação entre material nobre e intenção: peças pensadas para guardar significado, não apenas para exibir riqueza. Mesmo assim, é o próprio material, ouro, platina, pedras preciosas, que garantiu que esses objetos atravessassem revoluções, mudanças de dono e mais de um século sem perder valor.
Essa é uma lição que vale para qualquer joia, não só para tesouros de museu. O ouro guardado numa gaveta em casa carrega o mesmo tipo de valor real e verificável, independente de moda, marca ou história por trás dele.
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