Diamante amarelo de 158 quilates: a última grande descoberta da mina Diavik

No mesmo mês em que uma mina de diamantes no Ártico canadense encerrou definitivamente suas operações depois de 23 anos, ela entregou um de seus últimos e mais raros presentes: um diamante amarelo de 158 quilates, formado há cerca de 2 bilhões de anos. É uma dessas coincidências que parecem escritas de propósito, uma pedra praticamente tão antiga quanto a própria crosta terrestre, encontrada bem no instante em que essa história de mineração chegava ao fim.

Uma pedra de 2 bilhões de anos no fim de uma era

A Diavik Diamond Mine fica cerca de 200 quilômetros ao sul do Círculo Polar Ártico, nos Territórios do Noroeste do Canadá, construída sobre uma ilha artificial no meio do Lac de Gras, um lago congelado boa parte do ano. É um dos locais de mineração mais isolados do planeta: só se chega lá de avião, ou, no inverno, por uma estrada de gelo que existe apenas algumas semanas por ano.

Operada pela mineradora Rio Tinto desde 2003, a Diavik produziu mais de 150 milhões de quilates de diamantes brutos ao longo de 23 anos, até esgotar suas reservas economicamente viáveis. A produção final da mina foi celebrada oficialmente em 24 de março de 2026, encerrando um projeto que teve sua vida útil estendida por um investimento extra em mineração subterrânea nos últimos anos de operação. Foi justamente durante essa fase final, em março de 2025, que um dos diamantes retirados do subsolo ártico se revelou uma raridade geológica: uma pedra amarela de 158,20 quilates, uma das apenas cinco pedras dessa cor com mais de 100 quilates já encontradas em toda a história da mina.

Vista aérea da mina de diamantes Diavik, no Ártico canadense

Vista aérea da mina Diavik no verão, a 220 km ao sul do Círculo Polar Ártico (Foto: Rio Tinto)

A pedra

  • 158,20 quilates em estado bruto
  • Cor amarela intensa, de qualidade gema
  • Formada há aproximadamente 2 bilhões de anos

A mina

  • Diavik, Territórios do Noroeste, Canadá
  • 200 km ao sul do Círculo Polar Ártico
  • Operou de 2003 até março de 2026

A raridade

  • 1 de apenas 5 diamantes amarelos +100 quilates já achados ali
  • Diamantes amarelos são menos de 1% da produção da mina
  • Mais de 150 milhões de quilates produzidos ao todo
Diamante amarelo bruto de 158,20 quilates encontrado na mina Diavik

O diamante amarelo bruto de 158,20 quilates recuperado na mina Diavik (Foto: Rio Tinto)


Por que um diamante é amarelo

A cor de um diamante amarelo não vem de nenhum pigmento ou tratamento, vem de um detalhe na própria estrutura atômica da pedra. Durante a formação do cristal, sob altíssima pressão e temperatura no manto terrestre, alguns átomos de carbono são substituídos por átomos de nitrogênio. Esses átomos absorvem luz de forma diferente do carbono puro, fazendo o diamante refletir tons de amarelo em vez de permanecer incolor.

É justamente essa exigência específica de composição química que torna diamantes amarelos tão raros. Na Diavik, eles representam menos de 1% de toda a produção da mina, mesmo depois de mais de duas décadas de operação contínua. A maior parte do que a mina produziu ao longo de sua história são diamantes brancos comuns, o que torna qualquer pedra amarela de porte grande um evento digno de nota dentro da indústria.

2 bi de anos
é a idade estimada do diamante amarelo de 158,20 quilates encontrado na mina Diavik pouco antes do encerramento definitivo de suas operações.

O precedente: um diamante amarelo ainda maior, vendido por quase US$ 5 milhões

Essa não é a primeira vez que a Diavik surpreende com uma pedra amarela excepcional. Em 2018, a mina já havia entregado um diamante amarelo de 552,74 quilates em estado bruto, o maior já encontrado por lá, e um dos maiores da América do Norte. Depois de quase um ano de mapeamento e lapidação de precisão, aquela pedra bruta deu origem ao "Dancing Sun", um diamante lapidado de 204,36 quilates, corte cushion, de cor amarela intensa e clareza VVS2. A peça foi a leilão na Christie's, em Nova York, e foi vendida por quase US$ 5 milhões em junho de 2021.

Diamante amarelo bruto de 552,74 quilates encontrado na mina Diavik em 2018

O diamante bruto de 552,74 quilates, achado na Diavik em 2018, que mais tarde daria origem ao "Dancing Sun" (Foto: Rio Tinto)

Matt Breen, diretor de operações da Diavik, comentou a descoberta de 2026 em tom quase poético: "Este diamante canadense natural de 2 bilhões de anos é um milagre da natureza e um testemunho da habilidade e determinação de todos os homens e mulheres que trabalham no desafiador ambiente subártico de Diavik." Já Patrick Coppens, gerente de vendas e marketing da divisão de diamantes da Rio Tinto, destacou o interesse do mercado pela pedra: "A beleza e a pureza dos diamantes de Diavik continuam despertando paixões em todos que os veem, e aguardamos acompanhar a jornada dessa pedra tão especial."


Uma pedra que carrega quase toda a idade da Terra

Vale colocar em perspectiva o que significa um diamante de 2 bilhões de anos. A Terra tem cerca de 4,5 bilhões de anos. Isso significa que essa pedra específica já existia, intacta, quando o planeta tinha menos da metade da idade atual, muito antes do surgimento da vida complexa, muito antes dos dinossauros, muito antes de qualquer coisa reconhecível na história geológica recente.

Diamantes se formam sob condições extremas de pressão e temperatura, a grandes profundidades no manto terrestre, e só chegam à superfície através de erupções vulcânicas antigas que criaram os chamados tubos de kimberlito, as formações rochosas onde mineradoras como a Diavik concentram suas buscas. Uma vez formado, um diamante praticamente não muda: é o material natural mais duro conhecido, o que significa que a pedra que saiu do gelo ártico tem, estruturalmente, a mesma composição que tinha há 2 bilhões de anos.

Operação de mineração de diamantes em ambiente ártico

Operação de mineração de diamantes em um dos ambientes mais remotos do planeta (Foto: Rio Tinto)


O fim de uma mina, o início de uma nova jornada para a pedra

Sophie Bergeron, diretora-gerente da divisão de Ferro, Titânio e Diamantes da Rio Tinto, resumiu o encerramento da mina destacando a trajetória improvável do projeto: há 40 anos, poucas pessoas acreditavam que existiam diamantes no Canadá, e menos gente ainda imaginava como a história da Diavik se desenrolaria. Chegar a esse marco final, segundo ela, exigiu visão, coragem e determinação para minerar diamantes debaixo de um lago congelado, num dos ecossistemas mais remotos e preservados do mundo.

Assim como aconteceu com o diamante de 552 quilates em 2018, o diamante amarelo de 158 quilates agora segue para análise, mapeamento e, eventualmente, um processo de lapidação de precisão que pode levar meses. Só depois desse processo o mundo vai saber exatamente que peça final vai nascer dessa pedra bruta, e por quanto ela pode ser vendida.

Diamante amarelo excepcional de 158,20 quilates da mina Diavik

Outro ângulo do diamante excepcional de 158,20 quilates, divulgado oficialmente pela Rio Tinto (Foto: Rio Tinto)


O que fica dessa história

Um diamante de 2 bilhões de anos é um lembrete e tanto sobre o que realmente sustenta o valor de uma pedra preciosa: tempo, raridade e um processo geológico que nenhuma tecnologia humana consegue replicar em escala. Encontrar uma pedra dessas justo no encerramento de uma mina inteira é o tipo de coincidência que reforça algo simples, mas fácil de esquecer no dia a dia: cada diamante, mesmo os menores, carrega uma história de bilhões de anos, seja ele lapidado por 158 quilates ou por meio quilate numa aliança de noivado.

Se você tem joias com diamantes guardadas em casa, sejam heranças de família, peças antigas ou fora de uso, vale a pena entender o que exatamente elas carregam antes de vender, guardar ou repassar adiante. Raridade, cor, quilate e origem são fatores que só uma avaliação técnica adequada consegue identificar com precisão.

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