Por mais de uma década, arqueólogos mergulharam nas águas da ilha croata de Mljet para desvendar um naufrágio bizantino sem saber o que realmente carregava. Em julho de 2026, a resposta veio à tona: mais de 600 gramas de ouro, entre cintos cravejados de pedras preciosas, moedas imperiais e um raro anel de sinete, o maior tesouro de ouro já recuperado de um naufrágio em todo o Mediterrâneo.
Um naufrágio de 1.300 anos escondido no Adriático
O achado fica no sítio arqueológico "Tatinica", perto da baía de Polače, na costa oeste da ilha de Mljet, no sul do Adriático croata. Os destroços foram localizados em 2014 e, desde 2015, o Instituto Croata de Conservação conduz escavações sistemáticas no local, já são nove campanhas arqueológicas ao longo de uma década.
Pouco restou da estrutura de madeira do navio, mas os arqueólogos identificaram vestígios da quilha, das cavernas e do casco, suficientes para estimar que se tratava de uma embarcação mercante de porte médio, com cerca de 18 metros de comprimento e capacidade de carga de aproximadamente 60 toneladas.
Peças de ouro recuperadas do naufrágio bizantino de Mljet, mostradas pela equipe de pesquisa (Foto: Antonio Bronic/Reuters)
O que havia dentro do navio
Ao anunciar os resultados da escavação, o Instituto Croata de Conservação revelou um conjunto de mais de 40 objetos de ouro, com peso total superior a 600 gramas depois da limpeza e restauração. Segundo o pesquisador Igor Miholjek, "é uma quantidade impressionante de ouro, a maior já encontrada em um navio naufragado em todo o Mediterrâneo".
Guarnições de cinto
- 4 conjuntos completos de ouro
- Cravejados de esmeraldas, rubis e pérolas
- Nunca antes achados em naufrágio no Mediterrâneo
Moedas imperiais
- Sólidos de ouro (24 quilates)
- De quatro imperadores da dinastia heracliana
- Ajudaram a datar o naufrágio
Anel de sinete
- Traz a imagem de um imperador
- Usado para selar documentos oficiais
- Só pertenceria a alta patente

Guarnições de cinto de ouro cravejadas de pedras preciosas encontradas no naufrágio (Foto: Instituto Croata de Conservação)
Um anel que aponta para um passageiro de alto escalão
Para os arqueólogos, o anel de sinete é a peça mais reveladora do achado. Pavle Dugonjić, chefe do Departamento de Arqueologia Subaquática do instituto, descreveu a peça à Reuters como um anel com a imagem do imperador "que certamente não seria usado por qualquer pessoa". A hipótese levantada pela equipe é que o navio transportava um dignitário de alto escalão bizantino, talvez em missão diplomática, junto com sua comitiva.

Anel de sinete de ouro, possivelmente com a imagem do imperador Constantino IV (Foto: Instituto Croata de Conservação)
Um império em transição
O navio afundou entre o fim do século VII e o início do VIII, período em que o Império Bizantino, sucessor de Roma e com centro em Constantinopla, enfrentava turbulência política e perda de território, um momento da história com tão poucos registros escritos que costuma ser chamado de "Idade das Trevas" bizantina.
Mljet ficava numa rota marítima ativa entre o Mediterrâneo oriental e o ocidental, ligando Constantinopla a cidades como Ravena e Veneza. Os pesquisadores acreditam que o navio tentava se abrigar de uma tempestade na baía de Polače, que já servia de refúgio natural para embarcações havia séculos, quando afundou.
Justin Leidwanger, professor de arqueologia da Universidade Stanford e um dos pesquisadores do projeto, resumiu a importância do sítio: "Para mim, é o naufrágio mais importante desse período. Se você estiver estudando o fim do Império Romano tardio e a transição para o mundo medieval, este é um sítio fundamental."
Igor Miholjek, chefe de pesquisa do Instituto Croata de Conservação, mostra parte do ouro recuperado do naufrágio (Foto: Antonio Bronic/Reuters)
Ouro que atravessou 1.300 anos intacto
Há uma lição física nesse achado. Depois de mais de treze séculos submerso em água salgada, o casco de madeira do navio praticamente desapareceu e o ferro corroeu, mas o ouro emergiu do fundo do mar exatamente como foi feito: brilhante, sem ferrugem, sem desgaste estrutural. É a mesma característica que torna o ouro, até hoje, um dos ativos mais estáveis do mundo, um metal que não se degrada com o tempo e mantém seu valor intrínseco independentemente da época ou do contexto político em que circula.
Peças de ouro após o processo de limpeza e restauração (Foto: Antonio Bronic/Reuters)
As guarnições de cinto e as moedas do naufrágio de Mljet cumpriam, na época, uma função parecida com a de qualquer joia de ouro hoje: comunicavam status, serviam como reserva de valor e podiam ser fundidas e reaproveitadas quando necessário. Os próprios arqueólogos encontraram, junto ao tesouro, equipamentos de ourivesaria como balanças e cadinhos, o que sugere que parte daquele ouro já estava destinada a ser refundida em peças novas antes do naufrágio interromper essa história.
Detalhe de uma das peças de ouro recuperadas do fundo do mar (Foto: Antonio Bronic/Reuters)

Conjunto de peças de ouro recuperadas do naufrágio, incluindo fivelas e fragmentos de cinto (Foto: Instituto Croata de Conservação)
O que fica dessa história
O naufrágio de Mljet ainda vai render descobertas. O Instituto Croata de Conservação já anunciou planos de exposição, catálogo científico e um documentário sobre o trabalho de mais de uma década por trás do achado. Mas o essencial do que ele revela já está posto: enquanto impérios se formam e desaparecem, rotas comerciais mudam e embarcações se perdem no fundo do mar, o ouro permanece. É esse mesmo princípio, a permanência física e o valor real do metal, que torna qualquer peça de ouro guardada em casa hoje mais do que um objeto: um patrimônio que atravessa o tempo.
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